quarta-feira, 28 de março de 2018

As penas do ofício de revisor de texto

Quem sonha em ser revisor de texto deve começar corrigindo os próprios erros. Sempre incomodado com os erros de, por exemplo, colocação pronominal, concordância, regência, grafia e pontuação, principalmente vírgula, que encontrava nos livros, jornais e revistas de que era leitor, eu já ficava de olho nos meus quando nem sonhava em ser revisor, corrigindo as cartas que escrevia para os amigos, os releases para uma festa que ajudei a fazer entre 1991 e 1992 e os textos para um fanzine que editei entre 1993 e 1995, apesar de, nos tempos de escola, não ter tirado boas notas em redação e interpretação de textos, principalmente aqueles que, pela linguagem de outro mundo e falta de clareza, só o próprio autor conseguia entender. E não sonhava mesmo, porque, se tivesse sonhado, teria feito uma faculdade, visto que parte dos interessados em disputar uma vaga nesta profissão já começa a ser eliminada no próprio anúncio de quem a oferece, que, independentemente de pedir que o candidato tenha experiência ou não, exige que ele tenha formação de nível superior, de preferência, em Letras, achando que quem concluiu só até o ensino médio ou cursou outras áreas não domina a gramática da própria língua. Incumbido de corrigir o teste dos candidatos a colega de profissão em uma das empresas em que trabalhei, eu achava graça quando via os recrutadores dando preferência a quem tivesse se formado em uma das faculdades mais bem avaliadas pelo mercado. Aliás, o multifacetado Millôr Fernandes, que brilhou como desenhista, humorista, dramaturgo, escritor, tradutor e jornalista, estava falando sério quando, em uma entrevista para a primeira edição da revista “Língua”, lançada em 2005, disse: “Tudo o que aprendi foi no primário. Depois de um primário sólido, você pode ser um autodidata.”. Com a experiência de quem, a pedido, só havia corrigido os comunicados dos colegas em uma empresa em que havia trabalhado como atendente de portaria, xérox, almoxarifado e arquivo entre 1985 e 1991 e lido os manuais de redação e estilo dos principais meios de comunicação do país, como “O Estado de S. Paulo”, “Folha de S.Paulo”, “O Globo”, “Zero Hora” e Editora Abril, em 1995, mandei um currículo para um escritório de tradução e legendagem de filmes que havia anunciado no jornal uma vaga de revisor de texto. Aprovado no teste, no qual tive a sorte de encontrar alguns exemplos tirados do “Manual da Falta de Estilo”, coletânea de textos do jornalista Josué Machado que eu havia acabado de ler, estreei na carreira de revisor, corrigindo legendas de tradução de filmes. Há mais de 20 anos sofrendo as penas deste abençoado ofício (como ser autodidata, ignorante, ter dúvida, mente traiçoeira, trabalhar com textos ininteligíveis, prazo curto, encarar fins de semana, feriados e madrugadas, ver o trabalho diminuir ou faltar e o pagamento atrasar), só não digo que tenho a profissão que pedi a Deus porque ultimamente a pouca quantidade de trabalho tem me obrigado a fazer alguns bicos para poder pagar minhas contas.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Muçarela indigesta

Na fila da seção de frios do mercado onde um aviso proibindo a entrada de clientes na loja, isso mesmo “(…) não é permitido entrar na loja, (…)”, porque, se a intenção do aviso fosse o que parece – proibir a entrada de pessoas fumando, sem camisa ou com animais –, não haveria uma vírgula depois da palavra “loja”, eu não deveria me intrometer na conversa das duas pessoas que estavam atrás de mim, principalmente porque não as conhecia, mas, quando as ouvi falar mal da “muçarela”, cujo “ç” lhes estava causando indigestão, não consegui me manter calado, saí em defesa de quem havia escrito desta forma, porque, conforme está estabelecido em nosso sistema ortográfico, nas palavras estrangeiras aportuguesadas, o fonema /s/ seguido das vogais “a”, “o” e “u” deve ser escrito com “ç”, caso em que se encontram, por exemplo, “açúcar” (do árabe), “praça” (do espanhol), “palhaço” (do italiano), “açaí”, “miçanga” e “paçoca” (palavras vindas de línguas indígenas e africanas). Só não me atrevi a dizer ao homem e à mulher, que, como a maioria das pessoas que conheço ou não, devem escrever do jeito como veem escrito em mercados, bares, restaurantes, lugares que certamente não foram feitos para servir de escola a ninguém, o que a letra “u” está fazendo no lugar do “o”, já que em italiano o nome do tipo do queijo é“mozzarella”, palavra que sai da cozinha portuguesa como “mozarela”, como se encontra no “Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa”, principal obra de consulta de quem quer escrever de acordo com a norma culta, exigida no meio jornalístico, científico, acadêmico etc.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Acentuado ou junto por que?

A preposição “por”, conectivo que estabelece diversas relações – como a de causa – entre as palavras que ele liga, só deveria ser escrita separada do também conectivo “que”, como se vê nas frases em que ambos os conectivos SÃO ANTECEDIDOS POR VERBO (ou OUTRO TERMO) QUE EXIGE COMPLEMENTO, preposicionado ou não: “IMAGINE por que fui convidado”, “ADIVINHE por que não curto esta música”, “DESCOBRI por que a luz estava apagada”, “Você ENTENDE por que fui dormir cedo?”, “Ninguém DISSE por que ela perdeu o controle”, “A jornalista PERGUNTOU por que as obras ainda não haviam começado”, “VEJA por que a maioria dos brasileiros não gosta de ler”, “O aluno SABE por que não aprendeu”, “O cantor EXPLICOU por que a gente somos inútil”, “Isso MOSTRA por que aprender uma língua é tão difícil”, “TORÇO POR que melhore”, “Os alunos ANSEIAM POR que cheguem as férias”, “Ele estava ANSIOSO POR que o ônibus não demorasse”, “Ela estava AFLITA POR que a lua de mel terminasse logo”, ou por SUBSTANTIVO, caso em que a partícula “que” funciona como pronome relativo (equivalente a “o qual”, “a qual” e seus respectivos plurais) e a preposição “por” se encontra deslocada do verbo que a exige: “Este é o DINHEIRO por QUE vendo a casa”, “(...) os DIREITOS por QUE estamos lutando”, “(...) o MOTIVO por QUE eles brigaram”, “(...) o TÚNEL por QUE passamos existe há muitos anos”, “(...) o AVIÃO por QUE fui ao rio”, “(...) a RAZÃO por QUE mudanças foram discutidas”. Mas, como se quisessem dificultar a vida de quem escreve, principalmente de quem apanha na hora de escrever de acordo com a norma culta, os gramáticos inventaram mais três formas de escrever o encontro destes dois conectivos: “porque”, junto e sem acento, quando ambos os conectivos ENCABEÇAM ORAÇÕES SUBORDINADAS ADVERBIAIS, as quais ficam isoladas pela vírgula quando são explicativas, isto é, não são respostas de perguntas: “Os alunos obtiveram um mau resultado PORQUE NÃO ESTUDARAM”, “Dorme muito pouco PORQUE TRABALHA DEMAIS”, “Acho que choveu ontem PORQUE O CHÃO ESTÁ MOLHADO”, “Não irei ao cinema PORQUE ESTOU SEM DINHEIRO”, “Não suba aí PORQUE VOCÊ VAI CAIR”, “Os alunos obtiveram um mau resultado, PORQUE NÃO ESTUDARAM”, “Dorme muito pouco, PORQUE TRABALHA DEMAIS”, “Acho que choveu ontem, PORQUE O CHÃO ESTÁ MOLHADO”, “Não irei ao cinema, PORQUE ESTOU SEM DINHEIRO”, “Não suba aí, PORQUE VOCÊ VAI CAIR”; “porquê”, junto e acentuado, quando ambos os conectivos SÃO SUBSTANTIVADOS, SENDO ANTECEDIDOS POR ARTIGO, PRONOME ADJETIVO, PREPOSIÇÃO ETC.: “Ninguém entende O PORQUÊ de tanta confusão”, “Existem MUITOS PORQUÊS para justificar esta atitude”, “MEUS PORQUÊS só eu entendo”, “ESTE PORQUÊ tem de ser grifado”, “Ela sempre vem COM PORQUÊS”; e “por quê”, separado e com acento, quando ambos os conectivos APARECEM DESACOMPANHADOS OU NO FIM DA FRASE: “POR QUÊ?”, “Imagine POR QUÊ”, “Adivinhe POR QUÊ”, “Descobri POR QUÊ”, “Ninguém disse POR QUÊ”, “A jornalista perguntou POR QUÊ”, “Veja POR QUÊ”, “Você entende POR QUÊ?”, “Parou POR QUÊ?”. O problema é que, ao inventar estas outras absurdas formas, o incorrigível pessoal que manda e desmanda na caótica ortografia da língua portuguesa não só juntou duas palavras que, independentemente de se encontrarem no começo, no meio ou no fim da frase, deveriam ficar eternamente separadas e sem acento, mas assassinou a lógica, como, caso a caso, analiso a seguir. Na fusão das partículas conectivas em “porque”, desobedecendo ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que manda acentuar as oxítonas terminadas em “e”, como “você”, os gramáticos criaram uma oxítona com cara de paroxítona, como “corte”, “forte”, “morte”, “norte”, “porte”, “sorte”, “torne” etc. Só mesmo desrespeitando a regra criada por eles próprios para os gramáticos deixarem sem acento a forma “porque”, conjunção em que estão escondidos os conectivos vizinhos “por” e “que”, e com acento a forma “porquê”, substantivo em que estão escondidos os mesmos já mencionados vizinhos, como se, foneticamente falando, “porque” não soasse igual a “porquê”. Por último, mas não menos incoerente, a forma “por quê” me faz querer saber desde quando uma palavra, pertença à classe que pertencer ou tenha a função que tiver, depende do lugar em que se encontra na frase para ser acentuada. Se o aborto ortográfico, como os portugueses chamaram o último e – inútil – acordo ortográfico da língua que, bem ou mal, eles e suas ex-colônias falam, tivesse acabado com toda esta lambança, deixando a polivalente palavra “que”, a qual, independentemente da função que tem na frase, introduz o verbo no modo finito, do jeito como nasceu – separada e sem acento –, não veríamos quem tem dúvida na hora de escrever o causador encontro destes dois conectivos precisando de frases-modelo, participantes de concursos fazendo exercício de adivinhação, professores inventando paródias para tentar fazer seus alunos decorarem, como a professora que vi no programa de bate-papos de uma ex-apresentadora do “Jornal Nacional”, o professor Pasquale Cipro Neto valendo-se do inglês e o saudoso Napoleão Mendes de Almeida, de outras línguas para falar sobre o assunto, o primeiro, ao comentar em sua coluna semanal na “Folha de S.Paulo” a frase que estava no cartaz de uma senhora que havia participado de uma manifestação (“Porquê não mataram todos em 1964”), escrevendo: “Para quem sabe inglês, uma boa dica é ver se entra ‘why’ ou ‘because’. Se entra ‘why’, entra ‘por que’; se entra ‘because’, entra ‘porque’.” e o segundo, em seu “Dicionário de Questões Vernáculas”: “O ‘cur’, e principalmente o ‘quare’ do latim, palavra esta composta mas sempre escrita como se uma só, o ‘why’ do inglês (o Webster discrimina as três diferentes funções desse advérbio, entre as quais as de interrogativo), o ‘perché’ do italiano, o ‘porquoi’ do francês, o ‘warum’ do alemão são em dicionários e gramáticos consignados como advérbios, sem mais dificuldades de análise nem de ortografia.”. Só não dando 10 para a dica inglesa porque ela não diz se a oração introduzida pela conjunção é explicativa – isolada pela vírgula – ou não e vendo que, se a oração subordinada for levada para o infinitivo, a partícula “que” evapora-se, reproduzo abaixo alguns exemplos, todos com o verbo no subjuntivo, em que a incongruente e causadora forma “porque” indica finalidade (para que): “A modelo faz de tudo porque a notem”, “Enfiou o braço na jaula porque o pai o notasse”, “Fez tudo porque eu não obtivesse bons resultados”, “Não faça mal a ninguém porque não façam a você”, “É a honra que nos compele a zelar porque o Brasil sobreviva”, “Logo se emboscaram porque nos pudessem mandar ao reino escuro”, “Temos de prosseguir porque todos cheguem bem ou sem muitos ferimentos”, “Agiu daquela maneira porque o inimigo o visse e se assustasse com sua fúria”.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Palavrões incensuráveis

Você curte palavrões? Não estou falando das palavras ou expressões chulas, como aquelas que muitos telespectadores devem soltar quando a emissora de tevê coloca um efeito sonoro para não deixar ninguém ouvi-las, mas daquelas que são tão grandes que, para conseguirmos lê-las, precisamos pronunciá-las se-pa-ra-da-men-te, como “oftalmotorrinolaringologista”, palavrão com 28 letras cujo prefixo correspondente a olho (“oftalmo”) ainda vou ter de ensinar a meu filho, visto que, até eu procurar na rede as dez palavras mais difíceis de pronunciar da língua portuguesa, só havia ensinado os correspondentes a ouvido (“oto”), nariz (“rino”) e laringe (“laringo”). Outra palavra monstruosa que, brincando – brincando mesmo –, meu filho, de 5 anos, já aprendeu a falar é “diclorodifeniltricloroetano”, com 27 letras, duas a menos do que tem “anticonstitucionalissimamente”. Por falar em monstro, em meio à busca, fiquei surpreso ao saber que existe até um palavrão para quem tem medo de pronunciar palavras longas: “hipopotomonstrosesquipedaliofobia”, com assustadoras 33 letras. Mas, em matéria de número de letras, nenhuma supera “pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico”, com 46! Segundo o único dicionário que comprei depois da última reforma ortográfica, cuja capa já foi para o lixo de tanto ele cair no chão, é a doença causada pela aspiração de microscópicas partículas de cinzas vulcânicas. Quem é que se atreve a censurar – e falar – esse palavrão, hem?

domingo, 15 de outubro de 2017

Professores fora de série

Ao ver a câmara que se encontrava na gaveta em que peguei meu título de eleitor para ir escolher quem iria substituir Luís Inácio Lula da Silva na Presidência da República, fiquei me perguntando o que eu iria querer fotografar a caminho das urnas. A resposta estava em frente à escola em Osasco à qual, até 2014, voltei para votar: o velho barracão onde brincávamos na hora do recreio. Única imagem de meus primeiros anos de escola que o tempo ainda não apagou do concreto, a antiga construção foi o lugar que, em 1979, quando eu estava na 5ª. série, o professor de Educação Artística escolheu para começar a produzir um filme sobre monstros de outro planeta, tendo como estrelas alguns de meus colegas de classe. Em 1975, quando, mesmo sem certidão de nascimento, fui matriculado na escola de tábua do IAPI, o lugar onde foi construída a Benedicto Weschenfelder, onde estudei da 7ª. à 8ª. séries, era só mato. Meus primeiros dias de escola foram difíceis, mas teriam sido mais se eu não tivesse encontrado uma professora tão atenciosa, como a Maria Luísa (o acento no “i” e o “s” ficam por minha conta), que me ensinou tão bem que já saí da primeira série sabendo a tabuada do 2 ao 5 e escrever muitas palavras. Eu adorava quando ela dizia que quem acertasse toda a tabuada iria ganhar 1 cruzeiro, porque, sentindo amor pela Matemática desde o primeiro contato, não deixava o dinheiro ir parar na mão de ninguém, e pedia que eu pintasse os desenhos que ela mimeografava para colocar na pasta de Português, sempre me deixando com vontade de ter uma caixa de lápis colorido igual à dela, com 36 cores, uma das quais o verde-berilo, cor do carro dela, se não me engano, um Corcel. Desta inesquecível professora me ficaram não só as boas lições de Matemática e Português, mas também as de sensibilidade, como em um dia de inverno em que, vendo que eu não conseguia escrever de tanto frio, me levou para a cantina e pediu que eu só voltasse para a classe depois de tomar um café com leite bem quentinho. Tanto quanto a primeira, a segunda professora eu também não esqueço, dona Belmira, cujas aulas de Português me fizeram deixar sem o caderno infanto-juvenil muitos jornais que eu vendia no fim de semana. Professora com a qual estudei na 3ª. e na 4ª. séries, dona Aracy me ensinava tão bem que, sempre que via minha mãe, a qual, por causa do trabalho de empregada doméstica, dificilmente ia às reuniões, a fazia chorar de emoção. Já o professor Antônio Andrade, da 5ª. série, nunca me fez chorar, mas me deixava envergonhado toda vez que pedia que eu fosse à sala do diretor mostrar a prova de Português com toda a conjugação verbal certa. Mas com vergonha mesmo eu, que sempre fui um aluno exemplar, fiquei no dia em que dona Icléa, uma das melhores professoras de Português que tive, me deu uma chamada por ter deixado de fazer a lição de casa. Ainda no ginásio, tive outros professores fora de série, como Thier, de Matemática, Kátia, de Estudos Sociais, e, “last, but not least”, Narciso, de Inglês. Sérgio, de Biologia, foi o melhor professor que tive no colégio, cujas divertidas aulas levei a sério mais do que eu imaginava.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

O menino que roubava livros

Nunca a expressão rato de biblioteca me caiu tão bem como quando eu estava no ginásio, como antigamente se chamavam os quatro últimos anos do primeiro grau (ensino fundamental), que ia até a oitava série. Não porque, amigo dos livros desde que entrei na escola, eu era frequentador assíduo da sala em que eles ficavam, mas porque, quando eu encontrava algum de que gostava muito, roubava, ou, de acordo com o juridiquês, furtava, já que não era visto por ninguém, e, mesmo se fosse, quem é que iria se importar com um livro velho e sem capa, como o indispensável “Gramática Metódica da Língua Portuguesa”, do professor, gramático e filólogo Napoleão Mendes de Almeida, clássico que eu nem sonhava que um dia iria fazer parte de minha vida, principalmente depois que me tornasse revisor de texto, até o fim dela? Só mesmo eu e as traças. A edição que surripiei da biblioteca da escola era, se não me engano, da década de 1950, a qual, quando comprei a 39.ª, de 1994, dei para um amigo. Gostei tanto do livro que, mais tarde, quando eu já não era tão idiota para continuar agindo feito rato, comprei outra obra obrigatória, pelo menos para quem, por dever do ofício ou não, não curte transgredir a norma culta, do mesmo autor, o “Dicionário de Questões Vernáculas”, uma compilação de artigos que o rigoroso professor, que morreu em 1998, escreveu durante mais de cinco décadas para o jornal “O Estado de S. Paulo”, muitos dos quais tive o prazer de ler no próprio diário paulistano. Pelo nome deixado na primeira página do livro, já se pode imaginar que “O Apanhador no Campo de Centeio” é de outra pessoa. Depois que me emprestou, a dona, uma colega na segunda empresa onde trabalhei, nunca mais o viu, porque livro é igual a dinheiro, emprestou, já era, quase ninguém devolve, ou todos os livros que emprestei, principalmente aos amigos, teriam voltado a minha estante. Se eu tivesse de ser condenado por causa de todos os livros de que, emprestados ou não, me apoderei, teria de ter cem anos de perdão pelo segundo volume da série “Os Escritores”, uma coletânea de entrevistas da revista literária inglesa “The Paris Review” que um amigo emprestou para mim. Leitor de Vladimir Nabokov, Anthony Burgess (horrorshow!), Jack Kerouac e Gabriel García Márquez, alguns dos entrevistados, fui ficando com o livro até ele ser esquecido pelo “dono”.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Quem indica, amigo é

Escrevo depois de revisar os últimos textos que chegaram a minha mesa, um deles do amigo que indicou meus serviços para os autores destes trabalhos, de conclusão de curso. Já perdi a conta, até porque parei de contar, de quantas vezes uma tradutora que se tornou amiga minha quando eu frequentava as festas em que ela era DJ me endereçou um anúncio ou me indicou para um trabalho. Se os dois primeiros trabalhos de revisor de texto, ofício que exerço desde 1995, ambos em empresas de tradução e legendagem de filmes, não tivessem sido conseguidos por mim mesmo, eu poderia dizer que, ao longo destes meus mais de 20 anos de carreira, tudo o que fiz foi por indicação, o que não quer dizer que quem me indicou trabalhava na empresa para a qual me havia indicado, porque, por mais que você tenha rede de amigos, reais ou virtuais, de causar inveja, dificilmente algum deles vai querer, nem pagando – amigo, amigo; trabalho, à parte – indicar você para a empresa onde ele trabalha, para não correr risco de ficar mal na firma se você acabar não tendo sido uma boa aposta. Quando o assunto é indicação de trabalho, ninguém melhor para falar, inclusive mal, de seu trabalho do que quem trabalha ou já trabalhou com você. Sou agradecido a quatro colegas, todos da empresa onde trabalhei durante 15 anos, por me indicarem para uma lida: uma tradutora que me apresentou ao escritório de design do irmão dela; uma revisora, à editora de revistas de arquitetura para a qual ela, formada em jornalismo, havia ido trabalhar; um marcador de legendas que me chamou para revisar a versão brasileira de uma revista que ele coeditava fora do país; e outro marcador, para revisar o texto dos filmes que ele traduzia. Já o trabalho que consegui em uma assessoria de imprensa foi graças à indicação de uma jornalista cujos textos eu havia corrigido em minha rápida passagem pela redação de uma revista sobre jornalismo. Perdendo a conta de quantos trabalhos já fiz graças à indicação de quem confia em minha competência profissional, eu não poderia fechar este texto sem mencionar nenhuma presença feita por mim, como a de dois jornalistas que trabalharam para um dos escritórios aos quais cheguei por apresentação. É na hora em que é indicado para um trabalho que você vê como alguns amigos não servem só para festas, não.