domingo, 15 de outubro de 2017

Professores fora de série

Ao ver a câmara que se encontrava na gaveta em que peguei meu título de eleitor para ir escolher quem iria substituir Luís Inácio Lula da Silva na Presidência da República, fiquei me perguntando o que eu iria querer fotografar a caminho das urnas. A resposta estava em frente à escola em Osasco à qual, até 2014, voltei para votar: o velho barracão onde brincávamos na hora do recreio. Única imagem de meus primeiros anos de escola que o tempo ainda não apagou do concreto, a antiga construção foi o lugar que, em 1979, quando eu estava na 5ª. série, o professor de Educação Artística escolheu para começar a produzir um filme sobre monstros de outro planeta, tendo como estrelas alguns de meus colegas de classe. Em 1975, quando, mesmo sem certidão de nascimento, fui matriculado na escola de tábua do IAPI, o lugar onde foi construída a Benedicto Weschenfelder, onde estudei da 7ª. à 8ª. séries, era só mato. Meus primeiros dias de escola foram difíceis, mas teriam sido mais se eu não tivesse encontrado uma professora tão atenciosa, como a Maria Luísa (o acento no “i” e o “s” ficam por minha conta), que me ensinou tão bem que já saí da primeira série sabendo a tabuada do 2 ao 5 e escrever muitas palavras. Eu adorava quando ela dizia que quem acertasse toda a tabuada iria ganhar 1 cruzeiro, porque, sentindo amor pela Matemática desde o primeiro contato, não deixava o dinheiro ir parar na mão de ninguém, e pedia que eu pintasse os desenhos que ela mimeografava para colocar na pasta de Português, sempre me deixando com vontade de ter uma caixa de lápis colorido igual à dela, com 36 cores, uma das quais o verde-berilo, cor do carro dela, se não me engano, um Corcel. Desta inesquecível professora me ficaram não só as boas lições de Matemática e Português, mas também as de sensibilidade, como em um dia de inverno em que, vendo que eu não conseguia escrever de tanto frio, me levou para a cantina e pediu que eu só voltasse para a classe depois de tomar um café com leite bem quentinho. Tanto quanto a primeira, a segunda professora eu também não esqueço, dona Belmira, cujas aulas de Português me fizeram deixar sem o caderno infanto-juvenil muitos jornais que eu vendia no fim de semana. Professora com a qual estudei na 3ª. e na 4ª. séries, dona Aracy me ensinava tão bem que, sempre que via minha mãe, a qual, por causa do trabalho de empregada doméstica, dificilmente ia às reuniões, a fazia chorar de emoção. Já o professor Antônio Andrade, da 5ª. série, nunca me fez chorar, mas me deixava envergonhado toda vez que pedia que eu fosse à sala do diretor mostrar a prova de Português com toda a conjugação verbal certa. Mas com vergonha mesmo eu, que sempre fui um aluno exemplar, fiquei no dia em que dona Icléa, uma das melhores professoras de Português que tive, me deu uma chamada por ter deixado de fazer a lição de casa. Ainda no ginásio, tive outros professores fora de série, como Thier, de Matemática, Kátia, de Estudos Sociais, e, “last, but not least”, Narciso, de Inglês. Sérgio, de Biologia, foi o melhor professor que tive no colégio, cujas divertidas aulas levei a sério mais do que eu imaginava.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

O menino que roubava livros

Nunca a expressão rato de biblioteca me caiu tão bem como quando eu estava no ginásio, como antigamente se chamavam os quatro últimos anos do primeiro grau (ensino fundamental), que ia até a oitava série. Não porque, amigo dos livros desde que entrei na escola, eu era frequentador assíduo da sala em que eles ficavam, mas porque, quando eu encontrava algum de que gostava muito, roubava, ou, de acordo com o juridiquês, furtava, já que não era visto por ninguém, e, mesmo se fosse, quem é que iria se importar com um livro velho e sem capa, como o indispensável “Gramática Metódica da Língua Portuguesa”, do professor, gramático e filólogo Napoleão Mendes de Almeida, clássico que eu nem sonhava que um dia iria fazer parte de minha vida, principalmente depois que me tornasse revisor de texto, até o fim dela? Só mesmo eu e as traças. A edição que surripiei da biblioteca da escola era, se não me engano, da década de 1950, a qual, quando comprei a 39.ª, de 1994, dei para um amigo. Gostei tanto do livro que, mais tarde, quando eu já não era tão idiota para continuar agindo feito rato, comprei outra obra obrigatória, pelo menos para quem, por dever do ofício ou não, não curte transgredir a norma culta, do mesmo autor, o “Dicionário de Questões Vernáculas”, uma compilação de artigos que o rigoroso professor, que morreu em 1998, escreveu durante mais de cinco décadas para o jornal “O Estado de S. Paulo”, muitos dos quais tive o prazer de ler no próprio diário paulistano. Pelo nome deixado na primeira página do livro, já se pode imaginar que “O Apanhador no Campo de Centeio” é de outra pessoa. Depois que me emprestou, a dona, uma colega na segunda empresa onde trabalhei, nunca mais o viu, porque livro é igual a dinheiro, emprestou, já era, quase ninguém devolve, ou todos os livros que emprestei, principalmente aos amigos, teriam voltado a minha estante. Se eu tivesse de ser condenado por causa de todos os livros de que, emprestados ou não, me apoderei, teria de ter cem anos de perdão pelo segundo volume da série “Os Escritores”, uma coletânea de entrevistas da revista literária inglesa “The Paris Review” que um amigo emprestou para mim. Leitor de Vladimir Nabokov, Anthony Burgess (horrorshow!), Jack Kerouac e Gabriel García Márquez, alguns dos entrevistados, fui ficando com o livro até ele ser esquecido pelo “dono”.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Quem indica, amigo é

Escrevo depois de revisar os últimos textos que chegaram a minha mesa, um deles do amigo que indicou meus serviços para os autores destes trabalhos, de conclusão de curso. Já perdi a conta, até porque parei de contar, de quantas vezes uma tradutora que se tornou amiga minha quando eu frequentava as festas em que ela era DJ me endereçou um anúncio ou me indicou para um trabalho. Se os dois primeiros trabalhos de revisor de texto, ofício que exerço desde 1995, ambos em empresas de tradução e legendagem de filmes, não tivessem sido conseguidos por mim mesmo, eu poderia dizer que, ao longo destes meus mais de 20 anos de carreira, tudo o que fiz foi por indicação, o que não quer dizer que quem me indicou trabalhava na empresa para a qual me havia indicado, porque, por mais que você tenha rede de amigos, reais ou virtuais, de causar inveja, dificilmente algum deles vai querer, nem pagando – amigo, amigo; trabalho, à parte – indicar você para a empresa onde ele trabalha, para não correr risco de ficar mal na firma se você acabar não tendo sido uma boa aposta. Quando o assunto é indicação de trabalho, ninguém melhor para falar, inclusive mal, de seu trabalho do que quem trabalha ou já trabalhou com você. Sou agradecido a quatro colegas, todos da empresa onde trabalhei durante 15 anos, por me indicarem para uma lida: uma tradutora que me apresentou ao escritório de design do irmão dela; uma revisora, à editora de revistas de arquitetura para a qual ela, formada em jornalismo, havia ido trabalhar; um marcador de legendas que me chamou para revisar a versão brasileira de uma revista que ele coeditava fora do país; e outro marcador, para revisar o texto dos filmes que ele traduzia. Já o trabalho que consegui em uma assessoria de imprensa foi graças à indicação de uma jornalista cujos textos eu havia corrigido em minha rápida passagem pela redação de uma revista sobre jornalismo. Perdendo a conta de quantos trabalhos já fiz graças à indicação de quem confia em minha competência profissional, eu não poderia fechar este texto sem mencionar nenhuma presença feita por mim, como a de dois jornalistas que trabalharam para um dos escritórios aos quais cheguei por apresentação. É na hora em que é indicado para um trabalho que você vê como alguns amigos não servem só para festas, não.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

A primeira roubada um frila nunca esquece

A primeira roubada um frila nunca esquece. Foi em 1995, quando, antes de fechar as portas, o escritório onde estreei como revisor de texto me deu um cheque sem fundo. Mas não foi tão inesquecível quanto a segunda, que aconteceu em 2000, quando fui dispensado de uma revista sem receber nada, nem um “obrigado”. Minha história com a publicação, da qual eu era leitor desde 1987, ano da primeira edição dela, começou quando a “turma que escrevia direito”, como gosto de chamar a equipe jornalística que ajudou a escrever os primeiros onze anos da revista, já não fazia parte do expediente dela. Cansado de ver tantos erros de português do começo ao fim do periódico, telefonei para a redação para dizer que a revista estava precisando de um revisor. Nem bem me apresentei ao diretor de redação, passei a corrigir os textos, no começo, na redação, que ficava no cruzamento da avenida Ipiranga com a São João, na capital paulista, e, depois, em minha casa, em Osasco, recebendo-os pelo correio eletrônico. O que eu esperava que seria uma honra – trabalhar em uma revista que tinha como colaboradores Luís Edgar de Andrade e Heródoto Barbeiro, se é que o texto destes mestres do jornalismo brasileiro precisava de alguma revisão – acabou sendo uma grande frustração, porque, assim que revisei três edições, os textos pararam de ser enviados para mim. Sem ser informado do motivo da inesperada interrupção, descobri por que ao abrir a edição com a qual a revista comemorou os treze anos dela e ver no expediente o nome da pessoa que havia ocupado meu lugar. Acreditando na conversa de quem, dando crédito a meu trabalho, havia aberto as portas da revista para mim, esperei tanto algum pagamento pelo serviço prestado que acabei esquecendo o lamentável episódio, ou, melhor, deixei para ele ser lembrado como exemplo do excesso de boa-fé de uns e da falta de senso de justiça de outros, coisas que, infelizmente, fazem parte do mundo do trabalho, como deve saber muito bem quem trabalha como autônomo. Outro trabalho que se tornou inesquecível por falta de pagamento foi o que fiz em 2003 para uma editora de revistas. Nem fora de meu ferrado ofício, porque quem tem família para sustentar tem de ser pau para toda obra, não pode se dar o luxo de escolher o que fazer, estou livre das inevitáveis roubadas. Quando os bicos que a crise tem me obrigado a fazer enquanto não chega trabalho a minha mesa de revisão, inclusive dos lugares para os quais já mandei um caminhão de currículos, não me fazem receber menos do que eu esperava, me deixam com uma lembrancinha ou de mãos vazias. É por estas e outras que, paciente demais para o gosto de minha mulher, continuo achando que mais vale receber um pagamento atrasado ou parcelado do que um cheque sem fundo.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

A preposição 'que'

O cenário de degradação que eu via na Boca do Lixo, como acabou ficando conhecida a região do centro da cidade de São Paulo localizada no bairro da Luz por ter sido, entre o fim dos anos 1960 e começo dos anos 1980, reduto do cinema marginal, ainda não me entristecia tanto quanto o que tenho visto hoje ao assistir ao noticiário televisivo quando, entre 1988 e 1990, eu e Clodoaldo Gomes dos Santos, único amigo que eu chamaria para me ajudar a escrever um livro sobre as incongruências da gramática da língua portuguesa, começamos a fazer nosso café esfriar com uma discussão acerca da diferença entre “ter de” e “ter que”. Por tudo o que até então eu havia aprendido, principalmente no “Dicionário de Questões Vernáculas”, do ortodoxo professor Napoleão Mendes de Almeida, que ainda estava neste mundo, devo ter saído daquela conversa sem convencer meu amigo da diferença de sentido entre a primeira e a segunda expressões, porque ela é tão fina que fica difícil corrigir quem usa uma pela outra, ou as duas ao mesmo tempo, seguindo os gramáticos que dizem que ambas as locuções são equivalentes. Não, não são, porque, segundo os defensores do uso da locução “ter de”, neste caso, fica subentendida a ideia de OBRIGATORIEDADE (NECESSIDADE, DEVER), explicação de que eu nem precisaria para continuar escrevendo e falando, por exemplo, “Tenho de trabalhar”, já que o conectivo que acompanha verbos transitivos indiretos (“Gosto de trabalhar”) e de locuções verbais (“Preciso [de] trabalhar”) é a preposição “de”, e “ter que”, ALGO POR FAZER, como em “Nada tenho que escrever”, exemplo este em que o pau para toda obra “que” é pronome relativo do antecedente “nada” e objeto direto do verbo no infinitivo.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

O ‘record’ da Globo

Assistindo à emissora de tevê em que os brasileiros mais se ligam, vejo a repórter, que está em frente ao distrito policial onde foi registrada a ocorrência sobre a qual a repórter está falando, dizer “47 DP”, isso mesmo, quarenta e sete, porque, assim como oito entre dez pessoas, incluindo eu e, se duvidar, quem está lendo este texto, jornalista não sabe o nome dos números ordinais acima de dez, ou tem medo de não ser entendido se disser VIGÉSIMO PRIMEIRO (21.º), TRIGÉSIMO (30.º), QUADRAGÉSIMO SÉTIMO (47.º ), QUINQUAGÉSIMO (50.º), SEXAGÉSIMO (60.º), SEPTUAGÉSIMO ou SETUAGÉSIMO (70.º), OCTOGÉSIMO (80.º), NONAGÉSIMO (90.º), CENTÉSIMO (100.º), DUCENTÉSIMO (200.º), TRECENTÉSIMO ou TRICENTÉSIMO (300.º), QUADRINGENTÉSIMO (400.º), QUINGENTÉSIMO (500.º), SEXCENTÉSIMO ou SEISCENTÉSIMO (600.º), SEPTINGENTÉSIMO ou SETINGENTÉSIMO (700.º), OCTINGENTÉSIMO (800.º), NONINGENTÉSIMO ou NONGENTÉSIMO (900.º) e, para não ir até o infinito, MILÉSIMO (1.000.º), números cuja forma abreviada deve vir acompanhada de ponto (“.”) e, conforme a terminação, “o” ou “a”, detalhes estes para diferenciar a abreviatura de ordinal da de grau (“º”). A fim de não deixar ninguém achar que ela estava falando grego ou que ela não sabia o nome dos problemáticos números, a jornalista que me inspirou a escrever este texto bem que poderia ter invertido a ordem das palavras, dito “distrito policial número 47”, mas para que ela se daria este trabalho se, grosso modo, ninguém sabe o nome dos números que a deixam em uma saia justa? No mesmo dia, ouço, se não me engano, de uma pessoa entrevistada, o particípio passado irregular do verbo “pegar” – “pego” (ê), que continuo usando apenas com os auxiliares “ser” e “estar”–, sendo pronunciado como o presente do indicativo do mesmo verbo – “pego” (é). Como todos que já conjugamos o verbo “pegar” sabemos, a flexão da primeira pessoa do presente do indicativo é “pego”, com “e” aberto (é), como BETO, FETO, MELO, NETO, RETO, TETO e VETO. No particípio passado, “pegado” e, como “pegar” apresenta mais de uma forma no particípio, “pego”, com “e” fechado (ê), como CEDO, DEDO, GELO, MEDO e PEDRO. Mas, em matéria de pronúncia, nenhuma palavra me chama mais a atenção nos noticiários, inclusive radiofônicos, do que “recorde”, que os jornalistas da emissora global só falam à inglesa (“record”), como se estivessem proibidos de usar a forma portuguesa. Aliás, até eu descobrir que a sexagenária Record tem este nome porque antes de 1953, quando foi fundada, era uma casa de discos (“records”), ficava me perguntando por que o nome da concorrente da Globo é falado à francesa. História à parte, perto da troca do substantivo “perda” pela forma verbal “perca” (“Ver este programa é perca de tempo”), ou o contrário (“Tomara que ele não perda o ônibus”), a pronúncia do “pego” do passado pela pronúncia do “pego” do presente é café-pequeno.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Quem tem medo de escrever ‘coco’?


A regra do último Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa é clara, pelo menos para quem não se perde no obscuro campo da ortografia: são acentuadas as oxítonas, palavras cuja sílaba pronunciada com mais força é a última, terminadas em “a”, “e” e “o”, seguidas ou não de “s”, caso em que se encontra, por exemplo, “cocô”, cujo acento quem não aprendeu a regra, se esqueceu dela ou acha que tanto fez, tanto faz acaba colocando em “coco”, como se lê em certas placas de norte a sul do Brasil, já que esta palavra se escreve da mesma forma que aquela. Se, não importa por que, você tem medo de colocar o acento de uma na outra, principalmente quando for vender água da fruta, lembre-se de que “cocô” rima com DODÔ, IOIÔ e VOVÔ, todos com circunflexo (“^”), e “coco”, com BOBO, BOJO, BOLO, BOTO, FOFO, FOGO, JOGO, LOBO, LODO, MOFO, NOJO, POÇO, POVO, RODO, SOCO, TOCO etc., nenhum com “chapeuzinho”, como carinhosamente o acento circunflexo é chamado pelo povo. Seguindo ao pé da letra a velha regra, eu gostaria que os incansáveis reformadores da caótica ortografia da língua portuguesa, que, talvez achando que o povo tem dinheiro sobrando para substituir dicionários, gramáticas e livros desatualizados, de tempos em tempos voltam para fazer ou desfazer tudo o que inventam para simplificar ou complicar a vida de quem escreve, me explicassem por que “você”, dissílabo oxítono terminado em “e”, é acentuado e “porque”, dissílabo oxítono terminado em “e”, não é, ficando com cara de paroxítono, como “corte”, “dorme”, “forte”, “morde”, “morte”, “norte”, “porte”, “sorte” e “torne”. Por favor, não me digam que é porque (ops!) a palavra (aliás, é uma palavra ou são duas, juntas à força?) é conjunção, ou serei obrigado a perguntar desde quando uma palavra perde o acento só porque muda de classe ou função. Por acaso, a conjunção “porque” não soa igual ao substantivo “porquê”, da mesma forma que a flexão verbal “água” soa como o substantivo “água”?