segunda-feira, 11 de setembro de 2017

A preposição 'que'

O cenário de degradação que eu via na Boca do Lixo, como acabou ficando conhecida a região do centro da cidade de São Paulo localizada no bairro da Luz por ter sido, entre o fim dos anos 1960 e começo dos anos 1980, reduto do cinema marginal, ainda não me entristecia tanto quanto o que tenho visto hoje ao assistir ao noticiário televisivo quando, entre 1988 e 1990, eu e Clodoaldo Gomes dos Santos, único amigo que eu chamaria para me ajudar a escrever um livro sobre as incongruências da gramática da língua portuguesa, começamos a fazer nosso café esfriar com uma discussão acerca da diferença entre “ter de” e “ter que”. Por tudo o que até então eu havia aprendido, principalmente no “Dicionário de Questões Vernáculas”, do ortodoxo professor Napoleão Mendes de Almeida, que ainda estava neste mundo, devo ter saído daquela conversa sem convencer meu amigo da diferença de sentido entre a primeira e a segunda expressões, porque ela é tão fina que fica difícil corrigir quem usa uma pela outra, ou as duas ao mesmo tempo, seguindo os gramáticos que dizem que ambas as locuções são equivalentes. Não, não são, porque, segundo os defensores do uso da locução “ter de”, neste caso, fica subentendida a ideia de OBRIGATORIEDADE (NECESSIDADE, DEVER), explicação de que eu nem precisaria para continuar escrevendo e falando, por exemplo, “Tenho de trabalhar”, já que o conectivo que acompanha verbos transitivos indiretos (“Gosto de trabalhar”) e de locuções verbais (“Preciso [de] trabalhar”) é a preposição “de”, e “ter que”, ALGO POR FAZER, como em “Nada tenho que escrever”, exemplo este em que o pau para toda obra “que” é pronome relativo do antecedente “nada” e objeto direto do verbo no infinitivo.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

O ‘record’ da Globo

Assistindo à emissora de tevê em que os brasileiros mais se ligam, vejo a repórter, que está em frente ao distrito policial onde foi registrada a ocorrência sobre a qual a repórter está falando, dizer “47 DP”, isso mesmo, quarenta e sete, porque, assim como oito entre dez pessoas, incluindo eu e, se duvidar, quem está lendo este texto, jornalista não sabe o nome dos números ordinais acima de dez, ou tem medo de não ser entendido se disser VIGÉSIMO PRIMEIRO (21.º), TRIGÉSIMO (30.º), QUADRAGÉSIMO SÉTIMO (47.º ), QUINQUAGÉSIMO (50.º), SEXAGÉSIMO (60.º), SEPTUAGÉSIMO ou SETUAGÉSIMO (70.º), OCTOGÉSIMO (80.º), NONAGÉSIMO (90.º), CENTÉSIMO (100.º), DUCENTÉSIMO (200.º), TRECENTÉSIMO ou TRICENTÉSIMO (300.º), QUADRINGENTÉSIMO (400.º), QUINGENTÉSIMO (500.º), SEXCENTÉSIMO ou SEISCENTÉSIMO (600.º), SEPTINGENTÉSIMO ou SETINGENTÉSIMO (700.º), OCTINGENTÉSIMO (800.º), NONINGENTÉSIMO ou NONGENTÉSIMO (900.º) e, para não ir até o infinito, MILÉSIMO (1.000.º), números cuja forma abreviada deve vir acompanhada de ponto (“.”) e, conforme a terminação, “o” ou “a”, detalhes estes para diferenciar a abreviatura de ordinal da de grau (“º”). A fim de não deixar ninguém achar que ela estava falando grego ou que ela não sabia o nome dos problemáticos números, a jornalista que me inspirou a escrever este texto bem que poderia ter invertido a ordem das palavras, dito “distrito policial número 47”, mas para que ela se daria este trabalho se, grosso modo, ninguém sabe o nome dos números que a deixam em uma saia justa? No mesmo dia, ouço, se não me engano, de uma pessoa entrevistada, o particípio passado irregular do verbo “pegar” – “pego” (ê), que continuo usando apenas com os auxiliares “ser” e “estar”–, sendo pronunciado como o presente do indicativo do mesmo verbo – “pego” (é). Como todos que já conjugamos o verbo “pegar” sabemos, a flexão da primeira pessoa do presente do indicativo é “pego”, com “e” aberto (é), como BETO, FETO, MELO, NETO, RETO, TETO e VETO. No particípio passado, “pegado” e, como “pegar” apresenta mais de uma forma no particípio, “pego”, com “e” fechado (ê), como CEDO, DEDO, GELO, MEDO e PEDRO. Mas, em matéria de pronúncia, nenhuma palavra me chama mais a atenção nos noticiários, inclusive radiofônicos, do que “recorde”, que os jornalistas da emissora global só falam à inglesa (“record”), como se estivessem proibidos de usar a forma portuguesa. Aliás, até eu descobrir que a sexagenária Record tem este nome porque antes de 1953, quando foi fundada, era uma casa de discos (“records”), ficava me perguntando por que o nome da concorrente da Globo é falado à francesa. História à parte, perto da troca do substantivo “perda” pela forma verbal “perca” (“Ver este programa é perca de tempo”), ou o contrário (“Tomara que ele não perda o ônibus”), a pronúncia do “pego” do passado pela pronúncia do “pego” do presente é café-pequeno.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Quem tem medo de escrever ‘coco’?


A regra do último Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa é clara, pelo menos para quem não se perde no obscuro campo da ortografia: são acentuadas as oxítonas, palavras cuja sílaba pronunciada com mais força é a última, terminadas em “a”, “e” e “o”, seguidas ou não de “s”, caso em que se encontra, por exemplo, “cocô”, cujo acento quem não aprendeu a regra, se esqueceu dela ou acha que tanto fez, tanto faz acaba colocando em “coco”, como se lê em certas placas de norte a sul do Brasil, já que esta palavra se escreve da mesma forma que aquela. Se, não importa por que, você tem medo de colocar o acento de uma na outra, principalmente quando for vender água da fruta, lembre-se de que “cocô” rima com DODÔ, IOIÔ e VOVÔ, todos com circunflexo (“^”), e “coco”, com BOBO, BOJO, BOLO, BOTO, FOFO, FOGO, JOGO, LOBO, LODO, MOFO, NOJO, POÇO, POVO, RODO, SOCO, TOCO etc., nenhum com “chapeuzinho”, como carinhosamente o acento circunflexo é chamado pelo povo. Seguindo ao pé da letra a velha regra, eu gostaria que os incansáveis reformadores da caótica ortografia da língua portuguesa, que, talvez achando que o povo tem dinheiro sobrando para substituir dicionários, gramáticas e livros desatualizados, de tempos em tempos voltam para fazer ou desfazer tudo o que inventam para simplificar ou complicar a vida de quem escreve, me explicassem por que “você”, dissílabo oxítono terminado em “e”, é acentuado e “porque”, dissílabo oxítono terminado em “e”, não é, ficando com cara de paroxítono, como “corte”, “dorme”, “forte”, “morde”, “morte”, “norte”, “porte”, “sorte” e “torne”. Por favor, não me digam que é porque (ops!) a palavra (aliás, é uma palavra ou são duas, juntas à força?) é conjunção, ou serei obrigado a perguntar desde quando uma palavra perde o acento só porque muda de classe ou função. Por acaso, a conjunção “porque” não soa igual ao substantivo “porquê”, da mesma forma que a flexão verbal “água” soa como o substantivo “água”?

domingo, 11 de junho de 2017

Aportuguesado mesmo

Para começo de conversa, antes que alguém me pergunte, já vou dizendo que, fora do trabalho, onde não sou obrigado a escrever do jeito como o cliente gosta, só emprego o termo “blog” à portuguesa: “blogue”, com “e”, como BASQUETE, BIPE, BLECAUTE, BLEFE, BUFÊ, BULDOGUE, BUQUÊ, CHEFE, CHIQUE, CHOQUE, CLIPE, CLUBE, CONHAQUE, COPIDESQUE, CRÍQUETE, DEQUE, DRINQUE, DROPE, ESTANDE, ESTEPE, ESTILINGUE, ESTOQUE, ESTRESSE, FILME, FRONTE, GANGUE, GOLFE, IATE, IENE, JIPE, LEIAUTE, LOCAUTE, LORDE, NOCAUTE, PICAPE, PIQUE, PIQUENIQUE, RECORDE, RINGUE, RINQUE, SUINGUE, SURFE, TANQUE, TIME, TÍQUETE, TURFE, VERMUTE e outros exemplos, de origem inglesa ou não, que fico devendo em minha lista, afinal, se, escrevendo na língua dos brasileiros, ninguém deixa, por exemplo, “blogueiro” e “bloguista” com cara de estrangeiro, por que manter “blog” do jeito como veio ao mundo? A quem me disser que o substantivo “blog” fica estranho com nossa roupa (“blogue”) responderei que não menos estranha fica a flexão verbal “blogue”. Se, por um lado, só mantenho palavras estrangeiras da forma como são escritas na terra onde nasceram quando não as encontro aportuguesadas em nossos dicionários, por outro, só as importo quando em meu idioma me faltam palavras para tentar ser entendido. Quanto à revisão, no meu caso, é a de legendas de vídeo, trabalho que faço desde 1995, quando estreei no penoso e desvalorizado ofício de revisor de texto, em um pequeno escritório de tradução e legendagem de filmes.  Mas não passei estes mais de 20 anos corrigindo só legendas. De 2000 até aqui, ora prestando serviços para um, ora para outro, inclusive durante o tempo em que fui funcionário da empresa onde trabalhei mais tempo, mais de 15 anos, já corrigi textos de livros, publicações corporativas, prospectos de hospitais, embalagens de produtos farmacêuticos e, o pior até o momento, manuais técnicos, acumulando experiência suficiente para criar um blogue sobre meu trabalho. Atualmente, trabalhando para um escritório de tradução e legendagem de vídeo, onde, além de revisar legendas, transcrevo áudio para geração de legenda oculta (closed caption), e publicando no Portal Comunique-se meus textos sobre o português falado e escrito a torto e a direito pelos brasileiros, eu já era revisor antes mesmo de sonhar em abraçar esta profissão, corrigindo meus textos, como os releases que eu redigia para uma festa que correalizei entre 1991 e 1992 e os textos que escrevia e recebia para um fanzine que eu editei de 1993 a 1995, ou hoje eu estaria me perguntando para que, além de ocuparem espaço na estante, serviram todos os livros de gramática e os manuais de redação e estilo, inclusive dos principais jornais e revistas do país, que, por amor ao jornalismo e ao meu idioma, li.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Experiência não é tudo

Uma semana depois de contar em meu blog alguns episódios inesquecíveis de quando trabalhei pela segunda vez em Alphaville, por causa de um anúncio de trabalho temporário para revisor de texto em agência de propaganda, voltei ao, como gosto de dizer, lado rico de Barueri, ou onde pobre só se sente bem-vindo como empregado ou prestador de serviços. Escreveu minha amiga Silmara, que, sempre que vê alguma oferta de trabalho para revisor, me avisa (a CAIXA-ALTA é minha): “Sei que não é muito e talvez um pouco longe, mas não custa repassar, veja se interessa, alguém postou no grupo de que participo: ‘A AGÊNCIA NA QUAL TRABALHO PROCURA REVISOR(A) PARA FREELA DE 20 DIAS IN LOCO. FICA EM ALPHAVILLE E O VALOR OFERECIDO PELOS 20 DIAS GIRA EM TORNO DE 2 MIL, PARA TRABALHAR DE SEGUNDA A SEXTA, DAS 9 ÀS 18.’”. Como eu disse ao recrutador da agência, se minha amiga tradutora e DJ em muitas festas que curti quando não tinha filhos soubesse quanto dinheiro tenho ganhado com os bicos que, para compensar a pouca quantidade de trabalho que ainda tenho recebido da empresa para a qual presto serviços, têm aparecido para mim e quantas conduções eu pegava (ônibus-metrô-trem-trem-ônibus) para ir trabalhar em Alphaville quando morava em Embu das Artes, ela não teria dito que o rico e famoso bairro entre Barueri e Santana de Parnaíba é longe, porque quem precisa não mede distância. No mesmo dia, fui informado de que, se eu fosse selecionado, seria chamado para entrevista até o fim da semana. Sabendo que a distância entre o endereço onde moro, em São Paulo, e o da agência, em Barueri, já poderia me deixar fora do processo seletivo assim que o recrutador lesse meu currículo, eu encontrava apenas um empecilho, palavra que só aprendi a escrever depois da terceira tentativa para entrar na empresa onde até aqui trabalhei mais tempo, para não ser chamado para uma entrevista: eu ser autodidata, tendo aprendido na escola só até o, como se chama hoje, ensino médio. Pois, segundo o recrutador, que me foi muito atencioso antes e depois da entrevista, foram exatamente a distância e, o que nem passou por minha cabeça, minha falta de familiaridade com os computadores da “maçã mordida” que acabaram fazendo a agência escolher outro candidato, ou candidata, deixando-me achar que experiência não é tudo, mas apenas um dos fatores determinantes na cada vez mais difícil conquista de um emprego.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Todo mundo tem dúvida

Se você tivesse dois candidatos a uma vaga de revisor de texto, quem você escolheria: o que acertou 5 das 10 questões que ele respondeu ou o que acertou as 5 únicas que ele respondeu das mesmas 10 questões? Sem querer saber em qual faculdade o candidato havia se formado, quando eu corrigia testes de candidatos a uma vaga de revisor em uma das empresas onde trabalhei, consultado, eu aconselhava o selecionador a chamar a segunda opção, porque, a meu ver, quem corrige não deve errar, ou seu trabalho não vai merecer (muito) crédito. Mas como não errar se Todo o Mundo Tem Dúvida, Inclusive Você? Aliás, que me perdoe o autor desta boa e velha obra de consulta de quem escreve ou revisa, homônimo meu que já partiu deste mundo, mas, no caso do título, prefiro “todo” sem o artigo. Nem vem, que não tem (a vírgula é minha), você que é revisor ou sonha em exercer este penoso e desvalorizado ofício. Quando estiver colocando sua cabeça à prova, não responda nada que o deixar na dúvida, a não ser que seja obrigado, fazendo na base do achismo. Revisor não tem de achar nada. Se você não tiver certeza de, por exemplo, como está registrada uma palavra no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, referência oficial para concursos e provas, da colocação correta da vírgula e do pronome oblíquo átono, da regência abonada de um substantivo, adjetivo, advérbio ou verbo, da concordância de uma palavra com outra, da veracidade de uma informação, não faça nada, pois é preferível você deixar seu avaliador pensar que você não sabe tanto quanto ele precisava que você soubesse a deixá-lo pensando que você é daqueles que, em caso de dúvida, corrigem sem antes consultar uma fonte confiável. Esteja certo disto: por mais experiente que seja, o revisor sempre vai encontrar uma dúvida em sua mesa. Aliás, nada melhor para mostrar o mar de dúvidas no qual se encontra mergulhado todo revisor de texto do que seu material de apoio, como dicionários, livros de gramática, manuais de redação e estilo etc., o qual só não o ajuda a se livrar dos inevitáveis erros de giditação.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Fora, vírgula!

Quem já estudou os termos constituintes da oração sabe, ou deveria saber, que vocativo (do latim vocare, chamar) é a palavra ou expressão que indica chamado, apelo, como ocorre nas frases “ALUNOS, estudem a lição”, “SUA PREGUIÇOSA, saia logo dessa cama”, “Vocês sabem, AMIGOS, que preferências pessoais não se discutem”, “Precisamos, PESSOAL, ter paciência”, “Atenção, CRIANÇAS”, “Parabéns, QUERIDA”, “E agora, JOSÉ?”, “O que é isso, COMPANHEIRO?”, “Segura, PEÃO!” e “Xô, SATANÁS!”. Você notou que, independentemente do lugar em que se encontra na frase – no começo, no meio ou no fim –, o vocativo, termo que não mantém nenhuma relação sintática com outro termo da oração, aparece isolado (pela vírgula)? Mas parece que no manual de redação e estilo da Rede Globo, emissora cuja programação tem o impressionante poder de ensinar em segundos o que as escolas deste país têm tentado há séculos, o sinal de pontuação com que as gramáticas, todas, separam o vocativo não tem nenhuma importância, ou no título de seu noticiário matutino Bom Dia Brasil não estaria faltando uma vírgula. Outra emissora na lista da turma que não sabe ou não quer escrever direito é a Rede Record, ou, modernamente, RecordTV, com seu Fala Brasil, não imaginando que, deixando o vocativo sem seu penduricalho diferencial (escrever “Cadê Teresa?” é uma coisa; “Cadê, Teresa?”, outra), está ajudando a ensinar as pessoas deste país a escrever fora do padrão que se exige quando, por exemplo, elas colocam a cabeça delas a prêmio, como em uma prova a uma vaga de emprego. Fora da tevê, exemplos de vocativo sem vírgula são encontrados em 98% das faixas com que o povo gosta de sair às ruas para manifestar revolta contra tudo e contra todos, principalmente as de cunho político: “Fora FMI”, “Fora SARNEY”, “Fora COLLOR”, “Fora FHC”, “Fora LULA”, “Fora DILMA” e, “last but not least”, “Fora TEMER”.