segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Acentuado ou junto por que?

A preposição “por”, conectivo que estabelece diversas relações – como a de causa – entre as palavras que ele liga, só deveria ser escrita separada do também conectivo “que”, como se vê nas frases em que ambos os conectivos SÃO ANTECEDIDOS POR VERBO (ou OUTRO TERMO) QUE EXIGE COMPLEMENTO, preposicionado ou não: “IMAGINE por que fui convidado”, “ADIVINHE por que não curto esta música”, “DESCOBRI por que a luz estava apagada”, “Você ENTENDE por que fui dormir cedo?”, “Ninguém DISSE por que ela perdeu o controle”, “A jornalista PERGUNTOU por que as obras ainda não haviam começado”, “VEJA por que a maioria dos brasileiros não gosta de ler”, “O aluno SABE por que não aprendeu”, “O cantor EXPLICOU por que a gente somos inútil”, “Isso MOSTRA por que aprender uma língua é tão difícil”, “TORÇO POR que melhore”, “Os alunos ANSEIAM POR que cheguem as férias”, “Ele estava ANSIOSO POR que o ônibus não demorasse”, “Ela estava AFLITA POR que a lua de mel terminasse logo”, ou por SUBSTANTIVO, caso em que a partícula “que” funciona como pronome relativo (equivalente a “o qual”, “a qual” e seus respectivos plurais) e a preposição “por” se encontra deslocada do verbo que a exige: “Este é o DINHEIRO por QUE vendo a casa”, “(...) os DIREITOS por QUE estamos lutando”, “(...) o MOTIVO por QUE eles brigaram”, “(...) o TÚNEL por QUE passamos existe há muitos anos”, “(...) o AVIÃO por QUE fui ao rio”, “(...) a RAZÃO por QUE mudanças foram discutidas”. Mas, como se quisessem dificultar a vida de quem escreve, principalmente de quem apanha na hora de escrever de acordo com a norma culta, os gramáticos inventaram mais três formas de escrever o encontro destes dois conectivos: “porque”, junto e sem acento, quando ambos os conectivos ENCABEÇAM ORAÇÕES SUBORDINADAS ADVERBIAIS, as quais ficam isoladas pela vírgula quando são explicativas, isto é, não são respostas de perguntas: “Os alunos obtiveram um mau resultado PORQUE NÃO ESTUDARAM”, “Dorme muito pouco PORQUE TRABALHA DEMAIS”, “Acho que choveu ontem PORQUE O CHÃO ESTÁ MOLHADO”, “Não irei ao cinema PORQUE ESTOU SEM DINHEIRO”, “Não suba aí PORQUE VOCÊ VAI CAIR”, “Os alunos obtiveram um mau resultado, PORQUE NÃO ESTUDARAM”, “Dorme muito pouco, PORQUE TRABALHA DEMAIS”, “Acho que choveu ontem, PORQUE O CHÃO ESTÁ MOLHADO”, “Não irei ao cinema, PORQUE ESTOU SEM DINHEIRO”, “Não suba aí, PORQUE VOCÊ VAI CAIR”; “porquê”, junto e acentuado, quando ambos os conectivos SÃO SUBSTANTIVADOS, SENDO ANTECEDIDOS POR ARTIGO, PRONOME ADJETIVO, PREPOSIÇÃO ETC.: “Ninguém entende O PORQUÊ de tanta confusão”, “Existem MUITOS PORQUÊS para justificar esta atitude”, “MEUS PORQUÊS só eu entendo”, “ESTE PORQUÊ tem de ser grifado”, “Ela sempre vem COM PORQUÊS”; e “por quê”, separado e com acento, quando ambos os conectivos APARECEM DESACOMPANHADOS OU NO FIM DA FRASE: “POR QUÊ?”, “Imagine POR QUÊ”, “Adivinhe POR QUÊ”, “Descobri POR QUÊ”, “Ninguém disse POR QUÊ”, “A jornalista perguntou POR QUÊ”, “Veja POR QUÊ”, “Você entende POR QUÊ?”, “Parou POR QUÊ?”. O problema é que, ao inventar estas outras absurdas formas, o incorrigível pessoal que manda e desmanda na caótica ortografia da língua portuguesa não só juntou duas palavras que, independentemente de se encontrarem no começo, no meio ou no fim da frase, deveriam ficar eternamente separadas e sem acento, mas assassinou a lógica, como, caso a caso, analiso a seguir. Na fusão das partículas conectivas em “porque”, desobedecendo ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que manda acentuar as oxítonas terminadas em “e”, como “você”, os gramáticos criaram uma oxítona com cara de paroxítona, como “corte”, “forte”, “morte”, “norte”, “porte”, “sorte”, “torne” etc. Só mesmo desrespeitando a regra criada por eles próprios para os gramáticos deixarem sem acento a forma “porque”, conjunção em que estão escondidos os conectivos vizinhos “por” e “que”, e com acento a forma “porquê”, substantivo em que estão escondidos os mesmos já mencionados vizinhos, como se, foneticamente falando, “porque” não soasse igual a “porquê”. Por último, mas não menos incoerente, a forma “por quê” me faz querer saber desde quando uma palavra, pertença à classe que pertencer ou tenha a função que tiver, depende do lugar em que se encontra na frase para ser acentuada. Se o aborto ortográfico, como os portugueses chamaram o último e – inútil – acordo ortográfico da língua que, bem ou mal, eles e suas ex-colônias falam, tivesse acabado com toda esta lambança, deixando a polivalente palavra “que”, a qual, independentemente da função que tem na frase, introduz o verbo no modo finito, do jeito como nasceu – separada e sem acento –, não veríamos quem tem dúvida na hora de escrever o causador encontro destes dois conectivos precisando de frases-modelo, participantes de concursos fazendo exercício de adivinhação, professores inventando paródias para tentar fazer seus alunos decorarem, como a professora que vi no programa de bate-papos de uma ex-apresentadora do “Jornal Nacional”, o professor Pasquale Cipro Neto valendo-se do inglês e o saudoso Napoleão Mendes de Almeida, de outras línguas para falar sobre o assunto, o primeiro, ao comentar em sua coluna semanal na “Folha de S.Paulo” a frase que estava no cartaz de uma senhora que havia participado de uma manifestação (“Porquê não mataram todos em 1964”), escrevendo: “Para quem sabe inglês, uma boa dica é ver se entra ‘why’ ou ‘because’. Se entra ‘why’, entra ‘por que’; se entra ‘because’, entra ‘porque’.” e o segundo, em seu “Dicionário de Questões Vernáculas”: “O ‘cur’, e principalmente o ‘quare’ do latim, palavra esta composta mas sempre escrita como se uma só, o ‘why’ do inglês (o Webster discrimina as três diferentes funções desse advérbio, entre as quais as de interrogativo), o ‘perché’ do italiano, o ‘porquoi’ do francês, o ‘warum’ do alemão são em dicionários e gramáticos consignados como advérbios, sem mais dificuldades de análise nem de ortografia.”. Só não dando 10 para a dica inglesa porque ela não diz se a oração introduzida pela conjunção é explicativa – isolada pela vírgula – ou não e vendo que, se a oração subordinada for levada para o infinitivo, a partícula “que” evapora-se, reproduzo abaixo alguns exemplos, todos com o verbo no subjuntivo, em que a incongruente e causadora forma “porque” indica finalidade (para que): “A modelo faz de tudo porque a notem”, “Enfiou o braço na jaula porque o pai o notasse”, “Fez tudo porque eu não obtivesse bons resultados”, “Não faça mal a ninguém porque não façam a você”, “É a honra que nos compele a zelar porque o Brasil sobreviva”, “Logo se emboscaram porque nos pudessem mandar ao reino escuro”, “Temos de prosseguir porque todos cheguem bem ou sem muitos ferimentos”, “Agiu daquela maneira porque o inimigo o visse e se assustasse com sua fúria”.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Palavrões incensuráveis

Você curte palavrões? Não estou falando das palavras ou expressões chulas, como aquelas que muitos telespectadores devem soltar quando a emissora de tevê coloca um efeito sonoro para não deixar ninguém ouvi-las, mas daquelas que são tão grandes que, para conseguirmos lê-las, precisamos pronunciá-las se-pa-ra-da-men-te, como “oftalmotorrinolaringologista”, palavrão com 28 letras cujo prefixo correspondente a olho (“oftalmo”) ainda vou ter de ensinar a meu filho, visto que, até eu procurar na rede as dez palavras mais difíceis de pronunciar da língua portuguesa, só havia ensinado os correspondentes a ouvido (“oto”), nariz (“rino”) e laringe (“laringo”). Outra palavra monstruosa que, brincando – brincando mesmo –, meu filho, de 5 anos, já aprendeu a falar é “diclorodifeniltricloroetano”, com 27 letras, duas a menos do que tem “anticonstitucionalissimamente”. Por falar em monstro, em meio à busca, fiquei surpreso ao saber que existe até um palavrão para quem tem medo de pronunciar palavras longas: “hipopotomonstrosesquipedaliofobia”, com assustadoras 33 letras. Mas, em matéria de número de letras, nenhuma supera “pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico”, com 46! Segundo o único dicionário que comprei depois da última reforma ortográfica, cuja capa já foi para o lixo de tanto ele cair no chão, é a doença causada pela aspiração de microscópicas partículas de cinzas vulcânicas. Quem é que se atreve a censurar – e falar – esse palavrão, hem?

domingo, 15 de outubro de 2017

Professores fora de série

Ao ver a câmara que se encontrava na gaveta em que peguei meu título de eleitor para ir escolher quem iria substituir Luís Inácio Lula da Silva na Presidência da República, fiquei me perguntando o que eu iria querer fotografar a caminho das urnas. A resposta estava em frente à escola em Osasco à qual, até 2014, voltei para votar: o velho barracão onde brincávamos na hora do recreio. Única imagem de meus primeiros anos de escola que o tempo ainda não apagou do concreto, a antiga construção foi o lugar que, em 1979, quando eu estava na 5ª. série, o professor de Educação Artística escolheu para começar a produzir um filme sobre monstros de outro planeta, tendo como estrelas alguns de meus colegas de classe. Em 1975, quando, mesmo sem certidão de nascimento, fui matriculado na escola de tábua do IAPI, o lugar onde foi construída a Benedicto Weschenfelder, onde estudei da 7ª. à 8ª. séries, era só mato. Meus primeiros dias de escola foram difíceis, mas teriam sido mais se eu não tivesse encontrado uma professora tão atenciosa, como a Maria Luísa (o acento no “i” e o “s” ficam por minha conta), que me ensinou tão bem que já saí da primeira série sabendo a tabuada do 2 ao 5 e escrever muitas palavras. Eu adorava quando ela dizia que quem acertasse toda a tabuada iria ganhar 1 cruzeiro, porque, sentindo amor pela Matemática desde o primeiro contato, não deixava o dinheiro ir parar na mão de ninguém, e pedia que eu pintasse os desenhos que ela mimeografava para colocar na pasta de Português, sempre me deixando com vontade de ter uma caixa de lápis colorido igual à dela, com 36 cores, uma das quais o verde-berilo, cor do carro dela, se não me engano, um Corcel. Desta inesquecível professora me ficaram não só as boas lições de Matemática e Português, mas também as de sensibilidade, como em um dia de inverno em que, vendo que eu não conseguia escrever de tanto frio, me levou para a cantina e pediu que eu só voltasse para a classe depois de tomar um café com leite bem quentinho. Tanto quanto a primeira, a segunda professora eu também não esqueço, dona Belmira, cujas aulas de Português me fizeram deixar sem o caderno infanto-juvenil muitos jornais que eu vendia no fim de semana. Professora com a qual estudei na 3ª. e na 4ª. séries, dona Aracy me ensinava tão bem que, sempre que via minha mãe, a qual, por causa do trabalho de empregada doméstica, dificilmente ia às reuniões, a fazia chorar de emoção. Já o professor Antônio Andrade, da 5ª. série, nunca me fez chorar, mas me deixava envergonhado toda vez que pedia que eu fosse à sala do diretor mostrar a prova de Português com toda a conjugação verbal certa. Mas com vergonha mesmo eu, que sempre fui um aluno exemplar, fiquei no dia em que dona Icléa, uma das melhores professoras de Português que tive, me deu uma chamada por ter deixado de fazer a lição de casa. Ainda no ginásio, tive outros professores fora de série, como Thier, de Matemática, Kátia, de Estudos Sociais, e, “last, but not least”, Narciso, de Inglês. Sérgio, de Biologia, foi o melhor professor que tive no colégio, cujas divertidas aulas levei a sério mais do que eu imaginava.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

O menino que roubava livros

Nunca a expressão rato de biblioteca me caiu tão bem como quando eu estava no ginásio, como antigamente se chamavam os quatro últimos anos do primeiro grau (ensino fundamental), que ia até a oitava série. Não porque, amigo dos livros desde que entrei na escola, eu era frequentador assíduo da sala em que eles ficavam, mas porque, quando eu encontrava algum de que gostava muito, roubava, ou, de acordo com o juridiquês, furtava, já que não era visto por ninguém, e, mesmo se fosse, quem é que iria se importar com um livro velho e sem capa, como o indispensável “Gramática Metódica da Língua Portuguesa”, do professor, gramático e filólogo Napoleão Mendes de Almeida, clássico que eu nem sonhava que um dia iria fazer parte de minha vida, principalmente depois que me tornasse revisor de texto, até o fim dela? Só mesmo eu e as traças. A edição que surripiei da biblioteca da escola era, se não me engano, da década de 1950, a qual, quando comprei a 39.ª, de 1994, dei para um amigo. Gostei tanto do livro que, mais tarde, quando eu já não era tão idiota para continuar agindo feito rato, comprei outra obra obrigatória, pelo menos para quem, por dever do ofício ou não, não curte transgredir a norma culta, do mesmo autor, o “Dicionário de Questões Vernáculas”, uma compilação de artigos que o rigoroso professor, que morreu em 1998, escreveu durante mais de cinco décadas para o jornal “O Estado de S. Paulo”, muitos dos quais tive o prazer de ler no próprio diário paulistano. Pelo nome deixado na primeira página do livro, já se pode imaginar que “O Apanhador no Campo de Centeio” é de outra pessoa. Depois que me emprestou, a dona, uma colega na segunda empresa onde trabalhei, nunca mais o viu, porque livro é igual a dinheiro, emprestou, já era, quase ninguém devolve, ou todos os livros que emprestei, principalmente aos amigos, teriam voltado a minha estante. Se eu tivesse de ser condenado por causa de todos os livros de que, emprestados ou não, me apoderei, teria de ter cem anos de perdão pelo segundo volume da série “Os Escritores”, uma coletânea de entrevistas da revista literária inglesa “The Paris Review” que um amigo emprestou para mim. Leitor de Vladimir Nabokov, Anthony Burgess (horrorshow!), Jack Kerouac e Gabriel García Márquez, alguns dos entrevistados, fui ficando com o livro até ele ser esquecido pelo “dono”.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Quem indica, amigo é

Escrevo depois de revisar os últimos textos que chegaram a minha mesa, um deles do amigo que indicou meus serviços para os autores destes trabalhos, de conclusão de curso. Já perdi a conta, até porque parei de contar, de quantas vezes uma tradutora que se tornou amiga minha quando eu frequentava as festas em que ela era DJ me endereçou um anúncio ou me indicou para um trabalho. Se os dois primeiros trabalhos de revisor de texto, ofício que exerço desde 1995, ambos em empresas de tradução e legendagem de filmes, não tivessem sido conseguidos por mim mesmo, eu poderia dizer que, ao longo destes meus mais de 20 anos de carreira, tudo o que fiz foi por indicação, o que não quer dizer que quem me indicou trabalhava na empresa para a qual me havia indicado, porque, por mais que você tenha rede de amigos, reais ou virtuais, de causar inveja, dificilmente algum deles vai querer, nem pagando – amigo, amigo; trabalho, à parte – indicar você para a empresa onde ele trabalha, para não correr risco de ficar mal na firma se você acabar não tendo sido uma boa aposta. Quando o assunto é indicação de trabalho, ninguém melhor para falar, inclusive mal, de seu trabalho do que quem trabalha ou já trabalhou com você. Sou agradecido a quatro colegas, todos da empresa onde trabalhei durante 15 anos, por me indicarem para uma lida: uma tradutora que me apresentou ao escritório de design do irmão dela; uma revisora, à editora de revistas de arquitetura para a qual ela, formada em jornalismo, havia ido trabalhar; um marcador de legendas que me chamou para revisar a versão brasileira de uma revista que ele coeditava fora do país; e outro marcador, para revisar o texto dos filmes que ele traduzia. Já o trabalho que consegui em uma assessoria de imprensa foi graças à indicação de uma jornalista cujos textos eu havia corrigido em minha rápida passagem pela redação de uma revista sobre jornalismo. Perdendo a conta de quantos trabalhos já fiz graças à indicação de quem confia em minha competência profissional, eu não poderia fechar este texto sem mencionar nenhuma presença feita por mim, como a de dois jornalistas que trabalharam para um dos escritórios aos quais cheguei por apresentação. É na hora em que é indicado para um trabalho que você vê como alguns amigos não servem só para festas, não.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

A primeira roubada um frila nunca esquece

A primeira roubada um frila nunca esquece. Foi em 1995, quando, antes de fechar as portas, o escritório onde estreei como revisor de texto me deu um cheque sem fundo. Mas não foi tão inesquecível quanto a segunda, que aconteceu em 2000, quando fui dispensado de uma revista sem receber nada, nem um “obrigado”. Minha história com a publicação, da qual eu era leitor desde 1987, ano da primeira edição dela, começou quando a “turma que escrevia direito”, como gosto de chamar a equipe jornalística que ajudou a escrever os primeiros onze anos da revista, já não fazia parte do expediente dela. Cansado de ver tantos erros de português do começo ao fim do periódico, telefonei para a redação para dizer que a revista estava precisando de um revisor. Nem bem me apresentei ao diretor de redação, passei a corrigir os textos, no começo, na redação, que ficava no cruzamento da avenida Ipiranga com a São João, na capital paulista, e, depois, em minha casa, em Osasco, recebendo-os pelo correio eletrônico. O que eu esperava que seria uma honra – trabalhar em uma revista que tinha como colaboradores Luís Edgar de Andrade e Heródoto Barbeiro, se é que o texto destes mestres do jornalismo brasileiro precisava de alguma revisão – acabou sendo uma grande frustração, porque, assim que revisei três edições, os textos pararam de ser enviados para mim. Sem ser informado do motivo da inesperada interrupção, descobri por que ao abrir a edição com a qual a revista comemorou os treze anos dela e ver no expediente o nome da pessoa que havia ocupado meu lugar. Acreditando na conversa de quem, dando crédito a meu trabalho, havia aberto as portas da revista para mim, esperei tanto algum pagamento pelo serviço prestado que acabei esquecendo o lamentável episódio, ou, melhor, deixei para ele ser lembrado como exemplo do excesso de boa-fé de uns e da falta de senso de justiça de outros, coisas que, infelizmente, fazem parte do mundo do trabalho, como deve saber muito bem quem trabalha como autônomo. Outro trabalho que se tornou inesquecível por falta de pagamento foi o que fiz em 2003 para uma editora de revistas. Nem fora de meu ferrado ofício, porque quem tem família para sustentar tem de ser pau para toda obra, não pode se dar o luxo de escolher o que fazer, estou livre das inevitáveis roubadas. Quando os bicos que a crise tem me obrigado a fazer enquanto não chega trabalho a minha mesa de revisão, inclusive dos lugares para os quais já mandei um caminhão de currículos, não me fazem receber menos do que eu esperava, me deixam com uma lembrancinha ou de mãos vazias. É por estas e outras que, paciente demais para o gosto de minha mulher, continuo achando que mais vale receber um pagamento atrasado ou parcelado do que um cheque sem fundo.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

A preposição 'que'

O cenário de degradação que eu via na Boca do Lixo, como acabou ficando conhecida a região do centro da cidade de São Paulo localizada no bairro da Luz por ter sido, entre o fim dos anos 1960 e começo dos anos 1980, reduto do cinema marginal, ainda não me entristecia tanto quanto o que tenho visto hoje ao assistir ao noticiário televisivo quando, entre 1988 e 1990, eu e Clodoaldo Gomes dos Santos, único amigo que eu chamaria para me ajudar a escrever um livro sobre as incongruências da gramática da língua portuguesa, começamos a fazer nosso café esfriar com uma discussão acerca da diferença entre “ter de” e “ter que”. Por tudo o que até então eu havia aprendido, principalmente no “Dicionário de Questões Vernáculas”, do ortodoxo professor Napoleão Mendes de Almeida, que ainda estava neste mundo, devo ter saído daquela conversa sem convencer meu amigo da diferença de sentido entre a primeira e a segunda expressões, porque ela é tão fina que fica difícil corrigir quem usa uma pela outra, ou as duas ao mesmo tempo, seguindo os gramáticos que dizem que ambas as locuções são equivalentes. Não, não são, porque, segundo os defensores do uso da locução “ter de”, neste caso, fica subentendida a ideia de OBRIGATORIEDADE (NECESSIDADE, DEVER), explicação de que eu nem precisaria para continuar escrevendo e falando, por exemplo, “Tenho de trabalhar”, já que o conectivo que acompanha verbos transitivos indiretos (“Gosto de trabalhar”) e de locuções verbais (“Preciso [de] trabalhar”) é a preposição “de”, e “ter que”, ALGO POR FAZER, como em “Nada tenho que escrever”, exemplo este em que o pau para toda obra “que” é pronome relativo do antecedente “nada” e objeto direto do verbo no infinitivo.