quarta-feira, 24 de maio de 2017

Fora, vírgula!

Quem já estudou os termos constituintes da oração sabe, ou deveria saber, que vocativo (do latim vocare, chamar) é a palavra ou expressão que indica chamado, apelo, como ocorre nas frases “ALUNOS, estudem a lição”, “SUA PREGUIÇOSA, saia logo dessa cama”, “Vocês sabem, AMIGOS, que preferências pessoais não se discutem”, “Precisamos, PESSOAL, ter paciência”, “Atenção, CRIANÇAS”, “Parabéns, QUERIDA”, “E agora, JOSÉ?”, “O que é isso, COMPANHEIRO?”, “Segura, PEÃO!” e “Xô, SATANÁS!”. Você notou que, independentemente do lugar em que se encontra na frase – no começo, no meio ou no fim –, o vocativo, termo que não mantém nenhuma relação sintática com outro termo da oração, aparece isolado (pela vírgula)? Mas parece que no manual de redação e estilo da Rede Globo, emissora cuja programação tem o impressionante poder de ensinar em segundos o que as escolas deste país têm tentado há séculos, o sinal de pontuação com que as gramáticas, todas, separam o vocativo não tem nenhuma importância, ou no título de seu noticiário matutino Bom Dia Brasil não estaria faltando uma vírgula. Outra emissora na lista da turma que não sabe ou não quer escrever direito é a Rede Record, ou, modernamente, RecordTV, com seu Fala Brasil, não imaginando que, deixando o vocativo sem seu penduricalho diferencial (escrever “Cadê Teresa?” é uma coisa; “Cadê, Teresa?”, outra), está ajudando a ensinar as pessoas deste país a escrever fora do padrão que se exige quando, por exemplo, elas colocam a cabeça delas a prêmio, como em uma prova a uma vaga de emprego. Fora da tevê, exemplos de vocativo sem vírgula são encontrados em 98% das faixas com que o povo gosta de sair às ruas para manifestar revolta contra tudo e contra todos, principalmente as de cunho político: “Fora FMI”, “Fora SARNEY”, “Fora COLLOR”, “Fora FHC”, “Fora LULA”, “Fora DILMA” e, “last but not least”, “Fora TEMER”.

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