segunda-feira, 18 de setembro de 2017

A primeira roubada um frila nunca esquece

A primeira roubada um frila nunca esquece. Foi em 1995, quando, antes de fechar as portas, o escritório onde estreei como revisor de texto me deu um cheque sem fundo. Mas não foi tão inesquecível quanto a segunda, que aconteceu em 2000, quando fui dispensado de uma revista sem receber nada, nem um “obrigado”. Minha história com a publicação, da qual eu era leitor desde 1987, ano da primeira edição dela, começou quando a “turma que escrevia direito”, como gosto de chamar a equipe jornalística que ajudou a escrever os primeiros onze anos da revista, já não fazia parte do expediente dela. Cansado de ver tantos erros de português do começo ao fim do periódico, telefonei para a redação para dizer que a revista estava precisando de um revisor. Nem bem me apresentei ao diretor de redação, passei a corrigir os textos, no começo, na redação, que ficava no cruzamento da avenida Ipiranga com a São João, na capital paulista, e, depois, em minha casa, em Osasco, recebendo-os pelo correio eletrônico. O que eu esperava que seria uma honra – trabalhar em uma revista que tinha como colaboradores Luís Edgar de Andrade e Heródoto Barbeiro, se é que o texto destes mestres do jornalismo brasileiro precisava de alguma revisão – acabou sendo uma grande frustração, porque, assim que revisei três edições, os textos pararam de ser enviados para mim. Sem ser informado do motivo da inesperada interrupção, descobri por que ao abrir a edição com a qual a revista comemorou os treze anos dela e ver no expediente o nome da pessoa que havia ocupado meu lugar. Acreditando na conversa de quem, dando crédito a meu trabalho, havia aberto as portas da revista para mim, esperei tanto algum pagamento pelo serviço prestado que acabei esquecendo o lamentável episódio, ou, melhor, deixei para ele ser lembrado como exemplo do excesso de boa-fé de uns e da falta de senso de justiça de outros, coisas que, infelizmente, fazem parte do mundo do trabalho, como deve saber muito bem quem trabalha como autônomo. Outro trabalho que se tornou inesquecível por falta de pagamento foi o que fiz em 2003 para uma editora de revistas. Nem fora de meu ferrado ofício, porque quem tem família para sustentar tem de ser pau para toda obra, não pode se dar o luxo de escolher o que fazer, estou livre das inevitáveis roubadas. Quando os bicos que a crise tem me obrigado a fazer enquanto não chega trabalho a minha mesa de revisão, inclusive dos lugares para os quais já mandei um caminhão de currículos, não me fazem receber menos do que eu esperava, me deixam com uma lembrancinha ou de mãos vazias. É por estas e outras que, paciente demais para o gosto de minha mulher, continuo achando que mais vale receber um pagamento atrasado ou parcelado do que um cheque sem fundo.

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